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6 pontos cegos na liderança de times de tecnologia

Athena Bastos

Athena Bastos


Pontos-chave:

Líderes de tecnologia acumulam responsabilidades cada vez maiores, mas pontos cegos na gestão comprometem decisões, drenam orçamento e travam a maturidade tecnológica das empresas.

Os seis principais pontos cegos envolvem confiança mal direcionada, ausência de governança em IA, baixo investimento em talentos, desalinhamento com o CFO, visão limitada sobre regulação e dificuldade de escalar iniciativas digitais.

Superar os pontos cegos exige um programa estruturado nas frentes de comunicação, governança e desenvolvimento de pessoas.

A pressão sobre líderes de tecnologia nunca foi tão alta e tão pouco compreendida.

Enquanto a alta liderança das empresas exige resultados concretos de IA generativa, CTOs (Diretoria de Tecnologia), CIOs (Diretoria de Informação) e CAIOs (Diretoria de Inteligência Artificial) acumulam responsabilidades que vão além da infraestrutura: são responsáveis pela estratégia competitiva, gestão de talentos, governança de dados, entre outras atribuições.

O problema é que, nessa transição de papel e nos novos cargos, surgem lacunas silenciosas, ou seja, pontos cegos que comprometem decisões, drenam orçamento e travam a maturidade tecnológica das organizações.

A pesquisa “Strategic Pivots Will Define the CIO’s Agenda in 2026”, realizada com 2,5 mil CIOs e lideranças de tecnologia ao redor do mundo, coloca esse cenário em números: 94% esperam mudanças significativas em seus planos e resultados nos próximos 24 meses, mas apenas 48% das iniciativas digitais atingem ou superam suas metas de negócio.

A distância entre ambição e execução não é acidental. Ela tem causas identificáveis, e a maioria delas passa pela gestão. Para entender quais são esses pontos cegos na liderança em tecnologia, continue a leitura do artigo!

O que é liderança tecnológica?

Primeiro, é preciso deixar claro que a liderança em tecnologia deixou de ser sinônimo de domínio técnico em TI. O perfil que o mercado exige hoje é o de uma pessoa arquiteta de negócios que opera por meio da tecnologia.

Isso significa ser alguém capaz de:

  • conectar investimento em infraestrutura a resultados financeiros mensuráveis;
  • comunicar valor tecnológico em linguagem de negócio; e
  • construir times capazes de escalar a Inteligência Artificial de forma sustentável.

Por que a liderança e gestão em tecnologia acumulam pontos cegos?

Os desafios na liderança tecnológica não nascem de incompetência; eles surgem de contextos em transição acelerada, em que as métricas do passado ainda guiam decisões do presente.

Para exemplificar, pense em uma pessoa líder de TI que construiu sua carreira entregando projetos no ano de 2015. Agora essa mesma profissional enfrenta um conjunto de expectativas radicalmente diferente nos dias atuais e, frequentemente, não recebe nem o suporte nem o feedback necessário para perceber esse desalinhamento.

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Em um estudo da Deloitte, realizado com mais de 600 lideranças C-level de tecnologia nos EUA, 45% delas responderam que identificam as habilidades de IA generativa como as mais necessárias em suas organizações. Porém, apenas 27% colocam desenvolvimento de talentos como prioridade estratégica.

Essa distância entre o que se reconhece como crítico e o que se prioriza operacionalmente é a brecha para o surgimento de um ponto cego. Isso significa que não falta consciência nas empresas; falta estrutura e um plano de ação para transformar insights em decisões reais.

6 pontos cegos na liderança em tecnologia e como agir

Pontos cegos na liderança de tecnologia raramente aparecem como falhas óbvias. Eles se disfarçam de prioridades razoáveis, decisões que podem esperar e alocações de orçamento que fazem sentido no curto prazo.

Mas o que torna esses pontos cegos perigosos é que eles não param a operação; eles a enfraquecem por dentro. A empresa continua entregando os projetos, mas o custo real aparece mais tarde, como na saída de talentos que não encontram desenvolvimento, nas iniciativas de IA que paralisam em projetos piloto, entre outras situações.

A seguir, elencamos seis desafios que representam exatamente esse tipo de risco, invisível no dia a dia, mas crítico no médio prazo:

1. A falta de confiança na liderança CIO

O PwC traz um número que parece positivo à primeira vista: 74% das pessoas CEOs avaliam as pessoas CIO (Diretor(a) da Informação) como altamente eficazes. O problema está no que vem junto.

O mesmo estudo aponta que mais da metade das pessoas CIO (53%) afirma que sua empresa está atrás da concorrência na adoção de novas tecnologias. E 88% dessas lideranças estão preocupadas com os custos de adoção.

Com isso, é possível perceber que o cargo de CIO é bem avaliado, mas a função de TI ainda não entrega o que o negócio precisa. Confiança na gestão sem qualidade na entrega é um ponto cego disfarçado de aprovação.

2. O uso da IA sem governança

Das organizações que já utilizam IA em pelo menos uma função — 88% do total, segundo a McKinsey —, apenas um terço conseguiu escalar a tecnologia em nível empresarial.

A maioria permanece presa no que especialistas chamam de "pilot purgatory": projetos que nunca saem da fase de prova de conceito por falta de governança, dados estruturados e redesenho de processos.

Um dos motivos principais desse fenômeno é que muitas lideranças tratam a Inteligência Artificial como iniciativa de inovação sem estrutura de governança. Assim, sem regras definidas, um agente de IA que toma uma decisão errada não encontra nenhuma barreira antes de executá-la.

Leia também: Multiagentes de IA — o que são, como funcionam e aplicações práticas nos negócios

3. O baixo orçamento para capacitação em IA

Segundo a Deloitte, a falta de habilidades é o maior obstáculo para a integração da Inteligência Artificial nos fluxos de trabalho existentes.

Apesar disso, a resposta predominante das organizações é a educação superficial, com cursos básicos sobre letramento em IA. Mas carreiras e trilhas de desenvolvimento em tecnologia, que acabam sendo mais importantes para as empresas, ficam em segundo plano.

O resultado é que, sem um programa de desenvolvimento interno, a dependência de talentos de fora da organização só aumenta, o que gera mais custos e riscos de governança.

Ou seja, lideranças que não transformam a estratégia de talentos em iniciativa de negócio perdem a corrida da IA antes mesmo de começar.

4. A falta de colaboração com a liderança CFO (Chief Financial Officer)

A relação entre líderes de tecnologia e finanças melhorou no discurso, mas continua travada na prática. O “The Power of CIO-CFO Collaboration: Essential for Tech ROI and Business Growth” mostra que a avaliação de ROI tecnológico é o principal ponto de atrito entre as duas funções, e que CFOs e CIOs frequentemente disputam a responsabilidade pelas mesmas decisões de IA sem estrutura de autoridade compartilhada.

Essa desconexão sem clareza é o que impede que boas iniciativas ganhem orçamento. Líderes de tecnologia que não traduzem ROI técnico em linguagem financeira perdem influência sobre alocação de orçamento e capacidade de escalar o que funciona para a alta gestão.

Leia também: IA para treinamentos corporativos — o que é, vantagens, desafios e como usar

5. A regulação da IA vista como barreira

Lideranças de tecnologia costumam enxergar as novas regras para governança de IA como uma vantagem competitiva, não como obstáculo.

Isso porque quem opera dentro desse setor percebe que empresas que estruturam seus sistemas ganham credibilidade, reduzem riscos jurídicos e chegam primeiro aos mercados mais exigentes.

O ponto cego mais comum aqui é que essa visão raramente sai da área de TI e chega ao restante da liderança executiva. Enquanto isso, o volume de legislações sobre IA cresce em ritmo acelerado ao redor do mundo.

Organizações que se antecipam a esse movimento saem na frente; já as que tratam conformidade como uma obrigação de última hora possuem maior custo, chegam tarde e perdem espaço no mercado.

6. O gap entre infraestrutura e escala de IA

Investir em ferramentas de IA sem reorganizar os processos que as sustentam é um dos erros mais comuns (e mais caros) da liderança tecnológica atual. O resultado é uma adoção que parece moderna por fora, mas não gera impacto real nos resultados do negócio.

As ferramentas existem, as demonstrações impressionam, mas os projetos não saem do piloto. Inclusive, a Gartner aponta que menos da metade das iniciativas digitais atinge suas metas de negócio.

A diferença entre as organizações que conseguem escalar e as que ficam presas em projetos isolados não está na tecnologia escolhida; está em como a liderança organiza a colaboração entre as áreas de tecnologia e negócio para transformar projetos em resultados concretos.

Leia também: Tendências de liderança — o que esperar para 2026?

Como desenvolver uma liderança tecnológica sem pontos cegos

Superar os desafios na liderança que apresentamos acima não depende de esforço individual; é preciso contar com um programa estruturado de desenvolvimento organizacional para todas as equipes.

O primeiro passo é o diagnóstico, ou seja, entender onde a percepção da liderança diverge do que realmente ocorre no dia a dia da operação. A partir dessa etapa, três frentes são essenciais.

  • 1.ª Comunicação: líderes de tecnologia que conseguem explicar o impacto do seu trabalho em termos financeiros para CFOs e para a alta gestão ganham mais espaço nas decisões estratégicas.
  • 2.ª Governança: crescer em IA sem regras claras de controle e ética gera riscos que podem aparecer sem avisos, como em falhas de segurança, problemas legais e perda de reputação da marca.
  • 3.ª Desenvolvimento de pessoas: os talentos que o mercado precisa não estão disponíveis em quantidade suficiente para contratação. Por isso, uma das melhores estratégias é fazer uma requalificação interna (upskilling).

As três frentes acima exigem estrutura, método e uma parceria educacional completa. Afinal, não basta reconhecer os pontos cegos; é preciso ter um plano de ação para eliminá-los antes que eles se tornem desafios maiores para as empresas.

Por isso, para a frente de capacitação de pessoas, a Alura Para Empresas oferece formações e treinamentos para líderes e times de tecnologia que buscam conhecimentos em governança de IA, comunicação estratégica e desenvolvimento de talentos, entre outras áreas.

Fale com nosso time de especialistas e descubra como levar a nossa parceria educacional para a sua empresa!

Leia também: Como construir uma cultura de IA para impulsionar resultados?

Athena Bastos
Athena Bastos

Coordenadora de Comunicação da Alura + FIAP Para Empresas. Bacharela e Mestra em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Pós-graduanda em Digital Data Marketing pela FIAP. Escreve para blogs desde 2008 e atua com marketing digital desde 2018.